Quinta-feira, Julho 28, 2005
Talvez viver seja isto, isto precisamente
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Talvez viver seja isto,
isto precisamente.
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Um ovo estrelado com pão,
uma taberna sob impiedosa trovoada
quando a cidade anoitece e se ouve
qualquer relato decerto importante
em que o herói se chama Sporting.
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Estas tabernas, lugares sombrios
onde sob o pouco aprumo dos tonéis
morreu ou foi morrendo um poeta
que os abutres da nação fazem questão
de aclamar. Tinto ou branco, vai sempre
dar ao mesmo, modo apenas de vomitar
uma ausência fulgurante.
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Entretanto, dizem-se aqui os "até amanhãs",
celebra-se a calma metafísica de uma sopa
amornada e doente. São os mesmos que amanhã
cá estarão, vacilantes e anónimos, dizendo
de novo "até amanhã" para que a eternidade
se finja repetir. São os mesmos até mais ver,
a sopa, o ovo estrelado, o futebol, a
recusada tristeza de envelhecer.
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E talvez viver seja isto, a cruel poesia
dos tonéis, o mármore de balcões engordurados,
este morrer
de um modo gentil, quase despercebido.
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Não importa quem lembra as tabernas
que lentamente se apagam,
os versos tristes que as cantam.
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Manuel de Freitas
Todos contentes e eu também
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Domingo, Julho 24, 2005
Quinta-feira, Julho 21, 2005
___ Com os gravetos encalhados o vento desenha
na parede o gráfico do teu sopro __ Com as mãos
____ perdidas desfazes a imagem à espera
_____ que a parede se abra Será a última
________ parede do labirinto?
Manuel Gusmão
Sábado, Julho 16, 2005
Sexta-feira, Julho 15, 2005
poema
Reconheço este quarto impermeável
reconheço-te estás adormecido
o peito muito aberto as mãos luminosas
o grande talento dos teus dentes miúdos
Há o perigo de um grito lindíssimo
quando andas assim comigo no invisível
Quando a manhã vier sairás comigo
para o espaço que nos falta para o amor
que nos falta
A aurora
está fatigada
a aurora
como um no nosso
em torno dos elevadores
Tinha eu a idade
de um marselhês
silencioso
e tímido
Tu davas-me a lousa dos magos
o teu riso as letras
mais obscuras do alfabeto
Foi há muito tempo
ou agora
na caverna dos leões expressivos
A caverna que dá para a caverna
a caverna os lagos diligentes
Belo tu és belo
como um grande espaço cirúrgico
Porque tu não tens nome existes
A minha boca
sabe à tua boca
A minha boca
perdeu a memória
não pode falar as palavras
entram no seu túnel
e não é preciso segui-las
Disse que és alto
alto
branco e despovoado
Mário Cesariny
"sinto esta mão e esta perna a não fazerem nada"
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© diogo pacheco, 2005
em "testemunho de uma lateralidade cruzada"
Quarta-feira, Julho 13, 2005
CREPÚSCULO I
Quando às vezes te deixo
desamparado e nu
como se magoado depusesses
teu verdento contorno
na paz de um mausoléu
e me fitas ao longe
tocando-me ao de leve
na anca recolhida,
o algodão da saia a subjuga,
com a ponta dos olhos
a baça íris uiva
da cor do figo murcho
de quem só pensa em seus próprios retábulos
ansiosas epígrafes
de infância acometida por vária derisão.
Velado de negrura
zelas por teu recato,
no deserto Iampejam as pistolas
e mais não te derimo
não forço a tua mão
não ouso recusar a sede que me ofereces
e se te fosse escrava
oferta, aberta, rouca
não duvido que fosse
tua mão amputar
a língua que navega à deriva
por entre o silabar coralíneo da troça
e revulsa e agita amotinando a boca.
Fátima Maldonado
Terça-feira, Julho 12, 2005
Segunda-feira, Julho 11, 2005
Deserto
© Paulo NozolinoQuando ceguei decidi ser fotógrafo.
O que me levou a tomar esta decisão foi [após prolongado período de escuridão absoluta] a quantidade de imagens surgidas no meu espírito.
Primeiro, desfocadas, sem contornos nem volume; depois, a pouco e pouco, os elementos que as compunham definiram-se, tornaram-se reconhecíveis.
Pude ver, enfim, o que o meu espírito criara; em nenhuma das imagens [pelo menos que me lembrasse] se parecia com as que, porventura, vira antes de cegar.
Resolvi pedir auxílio a C. - descrevia-lhe com minúcia o que pretendia fotografar.
Se era uma paisagem, por exemplo, pedia-lhe que me encontrasse uma, em tudo semelhante àquela por mim descrita.
C. passou a ser o meu olhar.
Mas C. não podia ver a minha paisagem, e eu jamais saberia se a que fotografara era igual, ou parecida, à que desejara fotografar. E, se por acaso descrevesse a mesma paisagem B. [não C.] pedindo-lhe para, em seguida, me descrever a que via impressa no papel, apercebia-me de que não coincidiam em quase nada.
As paisagens de C. eram, sempre, diferentes das minhas. B. confirmava o que já suspeitava.
Apesar de tudo, continuei a trabalhar. Viajava na companhia de C. - íamos à procura dos lugares e das coisas que eu queria fotografar.
Dessa época, uma das fotografias [talvez a minha preferida] era de um grande rigor e simplicidade - uma estrada sumia-se na curva do horizonte e a linha branca da estrada terminava num ponto situado no centro da folha.
Embora C. me dissesse que, numa das bermas da estrada havia uma árvore. Não me recordo se lhe tinha falado numa estrada com uma árvore. É pouco provável.
Mas nada disto tem grande importância. A verdade é que eu não podia ver se havia ou não uma árvore na fotografia. E C. também não podia confirmar a existência duma árvore dentro da minha cabeça.
Certo dia pedi a C. que me indicasse como fotografar areia. Grandes extensões de areia ou de água, de céu vazio.
B., ao ver uma fotografia dessa série disse:
- Não está aqui quase nada. Algumas sombras, um pouco de luz e formas indefinidas.
Soube, nesse instante, que tudo começara a coincidir dentro e fora de mim.
Nunca mais precisei de C., nem de B. - desatei a fotografar sem ajuda. Escolhia o que desejava fotografar pelo tacto e pelo olfacto. Apontava a objectiva para o céu, para a água ou para as areias - disparava com a certeza de que as imagens que não via coincidiam com as que via.
Assim, ao fim de algum tempo, o que estava fora de mim passou a ser igual ao que estava dentro de mim - Luz e Sombra.
E foi Luz e Sombra que iniciei, no papel, a construção da minha biografia.
Al Berto
de O Anjo Mudo
Sábado, Julho 09, 2005
# EP's original soundtrack [2]
If I could for a minute, succumb to the disaster of everyday, to let me go, let of cling to...
I guess it would be possible to crash with one of the strangers that I cross by the street and have a premonition of happiness.
But now, it’s sure that I can’t, and probably that’s why one ghost comes every night to rock my stupid guilt, and why its way’s a ring of fire.
And when I finally sleep it’s always the same dream, sand falling fast in a glass bell.
The sand very clean, the glass so weak.
Migala - Arde
POEMA
dentro das tuas mãos
enquanto repousa
nelas teu o rosto..
Não é uma canção:
são os lábios apenas
ou o peito respirando
antes da palavra..
Arquitectura última
que depois se eleva,
porque tu a criaste
para sempre livre..
Talvez uma ave
seja a sua forma
ao passar o voo
que continua o poema...
Fernando Guimarães
Sexta-feira, Julho 08, 2005
...
há um espelho para a nossa triste transparência
Alejandra Pizarnik
de Antologia Poética
Quinta-feira, Julho 07, 2005
Explosões em Londres

Uma série de explosões que atingiram hoje, à hora de ponta, pelo menos três autocarros e seis estações do metropolitano de Londres causaram o pânico entre a população e um caos generalizado no centro da capital britânica
ver artigo completo aqui
uma mulher acende o lume da manhã
bill brandtUma mulher acende o lume da manhã e toda a casa se expande até surgir numa outra paisagem.
Unem-se as suas mãos terrosas numa súplica de água. Alguma coisa rompe no seu ventre um filho, quem sabe, uma tempestade.
No ombro do vento, adormece. Uma mulher cansada adormece.
Manuela Parreira da Silva
de O Albúm de Vishnu
Quarta-feira, Julho 06, 2005
Um Pirilampo
pode passar a noite numa folha de trevo, sem que daí resulte qualquer queimadura.
Se tivesse que eleger um mestre - hipótese que me repugna um pouco - de certeza que
me decidiria por um pirilampo como este.
Jorge de Sousa Braga
O Poeta Nu
Terça-feira, Julho 05, 2005
e fazias tranças a meu pedido. disseste-me que nos havia cegado
há anos e sem mais fechaste-te dentro de casa. trocaste as fechaduras
desligaste os telefones. acreditando que poderíamos
viver entre o espaço de uma rua. à soleira do corpo.
amplio-te num
cumprimento diáfano daquilo que resta. da trança no meu cabelo.
fio a fio levo-te manhãs íngremes com jornais pão e água reduzindo-me
ao mundo – para que não te percas ( tivemos sempre o mesmo corpo
desde que nascemos temo a desorientação do que sobra). recolhes o
que te levo ao final da manhã.
durante a tarde vigio a tua janela para que me apareças. e o dia seria
nu.
mas é à noite que emerges em alas transparentes a reprodu
zir momentos anteriores que diria felizes. incólumes. iguais a cache
cóis emparedados no cabide da entrada deixados a caminho
daquele que era o nosso espaço.
abraçado.
de "trinta e sete movimentos angulares"
Segunda-feira, Julho 04, 2005
pressa deste café (estranho arquipélago de
percursos) sua história somos quem a
escreve (alguém a quem se autoriza uma
cadeira vazia, o gesto de calçar o pé mais
curto da mesa,.o render de empregados
cedo recolhendo a despesa) este poema
tem vírgulas, o meu primeiro cigarro (doze
passas de ano novo) tínhamos ambos quinze
anos deves ir quase nos trinta (eu dentro dos
vinte e seis) penso não ter conseguido crescer
tanto como tu. vive-nos pouco um cigarro:
podias ficar esse tempo os homens como
as garrafas devem ser despidos por dentro
João Luis Barreto Guimarães
Domingo, Julho 03, 2005
EP' original soundtrack
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você
Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você
Tom Jobim e Vinícius de Moraes
EP

Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Jorge Palma













